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Guerreiro Ramos: um potente pensamento brasileiro decolonial na década de 50-60 do século XX

Nádia Maria Cardoso da Silva

Consideramos que a crítica decolonial latino-americana é estratégica para o Brasil nesse momento, pois, se constitui em uma crítica ao eurocentrismo, a partir dos saberes silenciados, pois subalternizados na América Latina, propondo uma perspectiva epistêmica que parta de lugares étnico-raciais subalternos para formulação de uma teoria crítica decolonial. Tomamos o conceito de racismo/sexismo epistêmico dessa crítica decolonial para pensar o silenciamento de negros e negras nas universidades brasileiras. Consideramos ainda que esses saberes negros silenciados no mundo acadêmico do Brasil, mas presentes nos terreiros de matriz africana, na política negra, nas rodas de capoeira e nas comunidades quilombolas do Brasil, podem contribuir para a decolonialidade do conhecimento acadêmico no Brasil, pois são espaços negros de produção de conhecimento que, ainda que afetados pela violência epistêmica dos poderes coloniais através da estratégia de criminalização, sua história de abandono pelas autoridades republicanas e democráticas a partir do pós-abolição, talvez motivados pela lógica do “deixar morrer”, os converteram em espaços de epistemologias de resistência. É a partir dessa crítica que meu projeto de tornar visível a experiência intelectual de negros e negras como estratégia de combate ao racismo epistêmico no Brasil, que me interessei por Guerreiro Ramos, pois sua produção intelectual, além de ter sido alvo de uma poderosa operação de silenciamento pelo racismo epistêmico das universidades brasileiras, nos oferece uma potente crítica ao eurocentrismo, a partir dos seus impactos na sociedade brasileira “pós-colonial”, especialmente nas ciências sociais, da década de 40 e 50 do século XX. Se esse conhecimento que produziu no Brasil e sobre o Brasil, não tivesse sido emudecido na vida acadêmica-universitária brasileira, talvez o Brasil estivesse de forma mais protagônica ao lado de intelectuais indianos como Guha, Said, Homi Bhabha, Spivak, de e latino-americanos e caribenhos como Anibal Quijano, Enrique Dussel, Valter Mignolo, Ramon Grosfoguel, Nelson Maldonado, etc. – que a partir das décadas de 70 e 80, passam a ter como foco dos seus trabalhos, a crítica ao eurocentrismo. Na sua intepretação do Brasil, era imprescindível a experiência do colonialismo, da escravidão e da colonialidade que permanecia na sociedade brasileira dos anos 40-60. Ao apresentar a potência do pensamento de Guerreiro Ramos, defendo nesse artigo que ele antecipou o pensamento decolonial na América Latina. Mais do que isso, proponho que Guerreiro seja considerado fundador dos estudos decoloniais no Brasil e na América Latina, especialmente de uma perspectiva negra, assim como Fanon é considerado o fundador dos estudos pós-coloniais no mundo.