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Ensino-aprendizagem de Filosofia por meio de História em Quadrinhos

Daniel Marques Vilela

Año 0, No. 6, septiembre 2014

Breves indicações

A História em Quadrinhos se dá a partir da relação entre duas linguagens distintas: a textual e a figurativa. Este meio é também uma linguagem que geralmente favorece a experiência lúdica.
Em 2006, Darlei Possamai defendeu a tese de mestrado em Ciências da Linguagem, Filosofia no Ensino Médio: o gênero História em Quadrinhos numa perspectiva de letramento. A dissertação de Possamai mostrou, por meio de práticas em sala de aula e questionários, a abertura dos jovens ao aprendizado de filosofia por meio de História em Quadrinhos e as barreiras relevantes entre estes jovens e o texto de Platão[1].
Possamai indica um entrave para o ensino de filosofia no Ensino Básico e um entrave para o ensino de filosofia por meio de História em Quadrinhos. Primeiramente, a filosofia, dentro de um ambiente tecnicista – marca de nossa sociedade atual –, é considerada inútil e sem sentido. O Ensino Básico está voltado para o Mercado e para o Mundo do Trabalho e não para pensar, repensar e refletir a cerca do Mercado e do Mundo do Trabalho. Assim, a ligação entre teoria e práxis faz-se necessário ou a filosofia não encontrará espaço para a sua efetivação. Por outro lado, filósofos, jornalistas e uma inércia pedagógica ignoram ou até condenam o uso de outros meios linguísticos em espaços didático-pedagógicos. Para estes, outras linguagens que não a textual são marcadas pela superficialidade e confundem ao invés de explicar. Seria necessário, portanto, abrir os espaços pedagógicos para a variedade de linguagens como forma de tornar mais rica a experiência do ensino-aprendizagem[2].
Por um lado vivemos em um mundo pragmático-tecnicista, por outro, segundo Liliane Barreira Sanchez, vivemos também em uma sociedade fortemente marcada “pela contemplação e o culto às imagens”. E por isso mesmo, Liliane valoriza o uso de imagens para o ensino de filosofia. E o próprio ensino de filosofia por meio de imagens torna-se também uma forma de pensar este mundo marcado pelo culto à imagem[3] – um mundo capitalista e consumista. Sanchez não pensa a tradução dos textos filosóficos para imagens ou para HQ – como Possamai -, mas o uso de imagens do cotidiano contemporâneo para discutir filosofia. No entanto, o texto de Sanchez nos estimula a trabalhar as Histórias em Quadrinho também com vistas à metalinguagem, ou seja, traduzir o texto filosófico para imagens ou HQ, mas também pensar a própria natureza da Imagem e os usos das imagens. Em O Uso de Imagens no Ensino de Filosofia a autora observa a necessidade de meios alternativos para, junto ao recurso textual, introduzir crianças mais facilmente ao mundo da filosofia, e incitar o interesse da mesma aos estudos da disciplina. Uma das alternativas proposta por ela é a elevação da linguagem imaginética ao mesmo patamar da linguagem escrita. A opção pela agregação desse recurso se torna apropriada, segundo a autora, por facilitar a interpretação de texto, e o entendimento de conceitos e fatos que poderia ficar comprometido se o ensino se limitasse ao uso de recursos constituídos apenas por linguagem textual.
O artigo destaca uma proposta de ensino de filosofia destinada às crianças, formulado na década de 60, chegando ao Brasil na década de 80, utilizado hoje em dia em mais de 30 países, de autoria de Matthew Lipman.  A autora cita que “a proposta de Lipman é merecedora de análises críticas no que diz respeito a muitos aspectos que lhe são próprios”, mas que sua principal intenção, de Sanchez, é utilizar-se da preocupação pela elaboração de material adequado para a faixa-etária infantil, e dos aspectos metodológicos positivos da proposta, culminando-os, com a utilização de imagens para reflexão filosófica. Ela defende a abordagem pela necessidade de elaborar novas estratégias para os métodos que “se impõem como receituários”, que dão pouco espaço para transformações, e pela conhecida dificuldade dos professores em transmitir o conteúdo, na maneira em que ele é mais utilizado hoje nas salas de aula, ela propõe que, talvez, o uso de uma metodologia “com base em imagens possa auxiliar nessa tarefa”.
Segundo o artigo de Darcísio Murario, Lipman em seu trabalho, enfatiza a idéia de uma educação não só voltada à memorização, mas, principalmente ao pensar, baseando-se em J. Deweye e em Vygotsky e incorporando contribuições de diversos filosofos como: George H. Mead, C. S. Peirce, Jean Piaget, Justus Buchler, Gilbert Ryle, Ludwig Wittgenstein, Martin Buber, Kant, dentre outros.
O autor afirma que Lipman observa vários pontos de questionamento comum às crianças como: verdade, regras, justiça, realidade, bondade, amizade, etc., e que só por esse fato já se justifica uma educação filosófica para ajudar as crianças a tratar dessas questões e concomitantemente aprender os processos do raciocínio e do julgamento. Independente do material didático utilizado, Darcísio Muraro mostra que o principal objetivo de Lipman é fazer com que as crianças aprendam a pensar por si mesmas, por meio de incentivo à imaginação das crianças sobre as questões filosóficas.
“Se a principal contribuição da criança ao processo educacional é seu caráter questionador, e se a filosofia é caracteristicamente uma disciplina que levanta questões, então a filosofia e a crianças parecem ser aliadas naturais.” Partindo dessa afirmação, Dário comenta que a filosofia na escola incentivaria as crianças a explorar seus próprios pensamentos e experiências, fazendo-as ricas e significativas, pois promoveria o aprendizado do “pensar, interpretar, conceituar, raciocinar, julgar, escolher” sempre que a vida da criança requerer esse tipo de investigação, e com essa prática, a filosofia na escola auxilia a criança a desenvolver a “sensibilidade social, cultural, política, ética, estética e cognitiva” Segundo o autor, havia também a preocupação de Lipman com o perfil do professor para a aplicação da filosofia em sala de aula, que, para ele, era importantíssimo que o professor incentivasse tanto a diversidade de pensamentos, e a liberdade criativa, quanto o rigor intelectual, fazendo com que o “pensamento de cada um seja tão claro quanto possível” desde que o intento do pensamento e seu conteúdo “não fiquem comprometidos”
O texto O desafio de ensinar filosofia através de imagem e do cinema para o jovem do Ensino Médio, dos autores Marli da Silva, Cristiano Cerezer e Marcela Sokolovicz, indica que a “cultura juvenil” da pós-modernidade é marcada pela superabundância de imagens. A cultura contemporânea é também marcada pelo “excesso” de informação, pelo modismo e por ondas passageiras de comportamento[4]. Este texto, assim como a de Sanchez, também não pensa a tradução de textos filosóficos para imagens. Segundo o texto em questão, “Ensinar filosofia através de imagens é possível, desde que tais imagens possuam um potencial filosófico ou sejam abordadas filosoficamente”. Esta abordagem nos faz recair novamentente na questão da metalinguagem.
Por outro lado, a HQ de Mauricio de Sousa sobre a Alegoria da Caverna que Possamai escolhe para discussão é também uma metalinguagem, pois a alegoria platônica em questão não é senão uma discussão a cerca das imagens, entendida como sombras ilusórias. Não por acaso, Mauricio de Sousa traz a Alegoria da Caverna para nossos dias e ao invés de sombras, personagens assistem à TV. Portanto, ao traduzir textos filosóficos para imagens ou HQ é também, não raro, discutir a Imagem de forma metalingüística.

A Filosofia, para muitos, não se mostra útil. Para estes, o que é útil é o que tem uma finalidade pragmático-tecnicista, bem condizente ao mundo burguês-capitalista. No entanto, pensar, repensar e até mesmo transformar a sociedade, a cultura e o mundo é a base da Filosofia. Marilena Chauí respondeu à questão da utilidade da Filosofia indicando o caráter crítico, interrogador e racional do pensamento filosófico:

Qual seria, então, a utilidade da Filosofia?

Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.[5]

No artigo Filosofia para Crianças, de Darcísio Muraro, estão presentes as seguintes citações:

“Depois de uma discussão eu me sinto mais gente.”
(Fala de uma criança na avaliação da aula de Filosofia.)

“Através do diálogo fica mais fácil mudar de atitude.”
(Manifesto das Crianças, I Congresso de Filosofia entre Crianças, 2000.)

“Pessoa gera pessoa quando há respeito, boa comunicação, entendimento,
compreensão, amor e verdade.”
(Turma 4ª D, E.M. Ricardo Krieger, Curitiba/PR)

[1] POSSAMAI, Darlei. Filosofia no Ensino Médio: o gênero História em Quadrinhos numa perspectiva de letramento. Tubarão: Universidade do Sul de Santa Catarina, 2006. (Dissertação de mestrado).
[2] POSSAMAI, Darlei. Filosofia no Ensino Médio: o gênero História em Quadrinhos numa perspectiva de letramento. Tubarão: Universidade do Sul de Santa Catarina, 2006. (Dissertação de mestrado).
[3] SANCHEZ, Liliane Barreira. O uso de imagens no ensino de Filosofia. In III Seminário Internacional: as redes de conhcecimento e a tecnologia. Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2005.
[4] CEREZER, SILVA & SOKOLOVICZ. O desafio de ensinar filosofia através de imagem e do cinema para o jovem do Ensino Médio. In III Seminário Nacional de Filosofia e Educação: Confluências. Universidade Federal de Santa Maria, 2009.
[5] CHAUÍ, Marilena. Convite a Filosofia.

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